terça-feira, 9 de julho de 2013

revida

Anciãos e anciãs se reuniram
consternados com a finitude,
com a ausência da juventude
que não mais animavam a cidade.

Os corpos inertes intrigaram.
Objeto de mórbida curiosidade,
deviam ocultar a essência
aquele tecido em decadência.

Cada rincão do abdômen, tórax e cabeça
foi perscrutado na busca de algo que permaneça.

Estirado o peritônio
Revirada a pleura ao avesso
Desdobrados metros e metros intestinos
A úvula lavada, a pineal empenhada, o coração descorado
E nada que indicasse o receptáculo álmico

O menos ancião dos anciãos se dizia alquimista
Tratou de misturar os restos do tecido cadavérico
À terra de ali mesmo numa evocação animista
O pútrido altar da nova alma revelava o etérico

Em alguns dias, a enegrecida massa borbulhou
O ácido húmico se apurava
O cheiro do chorume se avulta
Eis que nova vida começou

Saprófagas, necrófagas... amantes do substrato putrefato proliferaram:
De uma família das moscas, Calliphoridae...
Ninfas da deusa Kali, deusa negra da transformação, da cinza, do profundo
De uma família de besouros, Scarabidae....
Escaravelhos, mensageiros de Khepra, deus que leva o sol ao submundo

O que era negro, oculto, segredo só da terra
Mostrava-se ali aos olhos ávidos e corações em guerra
Antes guardado apenas para a cavidade uterina do chão
Eis que a transferência anímica revelava-se a cada ancião