quarta-feira, 3 de abril de 2013

indo

Des-maio. No momento em que a jovem enfermeira me perguntou se podia apertar meu braço com o elástico, se esboçou um evento esperado e até desejado. Sou fraca com sangue, mas me fascina vê-lo e sentir seu cheiro de ferro. A vermelhidão grossa e escura me chama para o profundo... Parece que a atração ao inorgânico às vezes me leva ao outro lado do corguinho...

Virei para a mocinha e pedi delicadeza. Ela era muito delicada, de fato. Em ocasiões como esta, me lembro da Pororoca - exercício de morte que fazíamos de baixo do bloco na infância.  Nessa fase, parece ter uma ruptura abissal entre os mundos dos grandes e dos pequenos. Mas queríamos pular para outros mundos ainda, para os dos ausentes. A presença chegava ao máximo na hiperventilação, depois chegava alguém por trás e abraçava o tórax bem forte e rápido, era a porrada. 

Lentamente, mas em um átimo – um átimo eterno – testemunhávamos nosso corpo nos deixar, ou deixarmos o corpo. O torpor se aprofundava... sonhávamos e voltávamos diferentes. Durava poucos segundos, talvez não mais que 3 ou 4, mas voltávamos diferentes. A lembrança infantil que se fez vívida, me incitava à esse encontro novamente,  à esse vislumbre da tendência à pane, à inconsciência, ao desorganizado e, no limite, ao inorgânico.

Talvez porque ontem fizemos a respiração do renascimento, essas lembranças ficam ainda mais vívidas. Dizem que a respiração da hiperventilação ativa memórias escondidas embaixo das clavículas, das costelas, atrás do nervo ótico, emaranhados nas tramas das centenas de músculos do pescoço, retesos nas glândulas, incrustados nas paredes dos intestinos, calcificado na intimidade do externo, imiscuidos nos humores uterinos.

Mas hoje no momento em que veio sangue jorrando para dentro do tubo, lembrei de respirar. Respirei muito, de fato. Foram longos 11 tubos que se preenchiam com meu sangue. O livro que lia na antessala do laboratório de exame me acompanhou. Respirava, respirava e lia, lia mas não atentava... Na vertigem, Derrida me falava:

Para além da borda pretensamente humana (...) há, de antemão, uma (...) multiplicidade de organizações das relações entre o vivente e a morte, das relações de organização e de não-organização entre os reinos cada vez mais difíceis de dissociar nas figuras do orgânico e do inorgânico, da vida e/ou  da morte.

Uma vertigenzinha boa e agoniante me corroía. A ideia dessa gradação, desse contínuo com o inorgânico me dava um prazer angustiado. Era uma fraqueza, uma queimação na cabeça, era uma sensação conhecida, percorrida. Achava que até podia dominá-la, me deixar fundir com o chão só um pouquinho e depois resistia.

Perguntei para a mocinha se já estava terminando e ela me respondia docemente que sim. Contestei dizendo:  -  que bom, pois já estou indo. Nessa altura, derretia na cadeira, o ar já estava ficando viscoso demais, difícil de respirar. Mas enfim, terminou. Fui voltando. As meninas do laboratório todas se mobilizavam quase eufóricas. Parecia haver uma excitação, uma fascinação com tudo aquilo que lembrava a morte. Afinal, precisamos também de templos da doença e da morte.